Quando a ficção vira conscientização: Vale Tudo e o debate sobre a leucemia

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Como a novela traz a Leucemia Mieloide Aguda para a cena pública e desperta mobilização em torno da doação de medula óssea

Tramas de sucesso como Laços de Família e, agora, Vale Tudo, mostram como a televisão é capaz de mobilizar o público, gerar informação de qualidade e incentivar atitudes concretas, como o cadastro de doadores de medula óssea.

A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) voltou a ganhar visibilidade com o personagem Afonso, da novela Vale Tudo. O diagnóstico do triatleta abriu espaço para que o público refletisse sobre sintomas, tratamentos e a importância da doação de medula óssea. Não é a primeira vez que isso acontece. Há 25 anos, Laços de Família já havia colocado a leucemia em pauta com a personagem Camila, vivida por Carolina Dieckmmann, que protagonizou uma das cenas mais marcantes da TV brasileira: o dia em que decide raspar a cabeça.

A repercussão gerou o “Efeito Camila”, quando milhares de pessoas se tornaram doadoras de medula, provocando um aumento de 4.000% nos cadastros no Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME) em apenas um ano. Esse fenômeno se explica pelo conceito de edutainment (ou entretenimento-educação), desenvolvido nos anos 1970 pelo pesquisador mexicano Miguel Sabido. A lógica é simples: quanto mais o público se envolve emocionalmente com uma história, maior a chance de refletir e transformar atitudes na vida real.

Ficção e realidade: um olhar médico

Para o médico hematologista Dr. Paulo Roberto Souza, a novela cumpre um papel importante ao dar visibilidade à LMA. Ele destaca que um dos principais acertos da trama foi mostrar que a doença pode atingir qualquer pessoa, independentemente de histórico familiar ou estilo de vida.

“Afonso é jovem, saudável, triatleta, sem histórico de câncer na família. A novela acertou em mostrar que a leucemia pode surgir assim, de repente”, afirma.

Outro ponto importante destacado pelo especialista foi a forma como os sintomas foram retratados. O cansaço extremo do personagem, acostumado a treinos de alta performance, que já não conseguia manter treinos simples, somado a manchas no corpo e sangramentos, corresponde ao que muitos pacientes relatam ao receber o diagnóstico.

A reação da família na novela, assim como na vida real, também foi ressaltada por Dr. Paulo Roberto. A negação inicial, a dúvida em relação aos exames e a busca por uma segunda opinião são comportamentos comuns diante de um diagnóstico inesperado. No entanto, a fala da personagem Odete, que sugere buscar tratamento fora do Brasil, foi refutada pelo hematologista, já que os protocolos de tratamento da LMA são internacionais.

“O que pode variar é a estrutura de internação, o conforto, mas não o tratamento”, explica. Ele reforça que a medicina é baseada em evidências científicas, testadas e discutidas em escala mundial, e que protocolos consolidados são aplicados com rapidez em diferentes países, garantindo capilaridade e equidade no acesso.

Apesar dos acertos, Dr. Paulo Roberto faz uma crítica à forma como os efeitos da quimioterapia foram mostrados. Para ele, a novela acabou reforçando estereótipos antigos, enquanto, na prática, já existe uma gama de medicamentos capazes de reduzir significativamente os efeitos colaterais do tratamento.

“O paciente muitas vezes chega ao hospital com um imaginário de sofrimento absoluto, construído por representações em filmes e novelas. Mas hoje, na maioria dos casos, o processo é bem mais controlado”, observa.

Na novela, assim como na vida real, a expectativa gira em torno da compatibilidade de um doador. Esse sentimento de empatia e sensibilização despertado pelo personagem pode até gerar um “efeito Afonso”, incentivando o aumento no número de cadastros de medula óssea e ampliando as chances de cura para muitos pacientes. Cabe agora ao público acompanhar os próximos capítulos para ver como a trama seguirá, com a esperança de que a ficção continue inspirando gestos concretos de solidariedade.

Entendendo a LMA

A leucemia é um tipo de câncer que afeta o sangue. Pode se manifestar de forma aguda, em que a condição é mais agressiva, ou de forma crônica, quando o desenvolvimento das células doentes é mais lento e gradativo.

Na LMA, a produção de glóbulos brancos defeituosos cresce de maneira descontrolada, ocupando o espaço das células saudáveis e comprometendo a imunidade e o funcionamento normal do corpo. Ela pode estar associada à exposição prolongada ao tabaco ou ao benzeno, mas também pode surgir “de novo”, isto é, sem causas aparentes, como nos casos de Camila e Afonso.

Os sintomas mais comuns incluem cansaço extremo, febre frequente, manchas roxas ou sangramentos sem motivo aparente, perda de peso, infecções recorrentes e até dores nos ossos. Como esses sinais podem ser confundidos com outras doenças, a avaliação médica é indispensável. E, como em quase todas as doenças, o diagnóstico precoce faz toda a diferença.

Um apelo à sociedade

No capítulo exibido em 16 de setembro, Vale Tudo apresenta uma cena didática sobre a importância e abrangência do REDOME, hoje o terceiro maior banco de doadores do mundo. O personagem Sardinha se oferece como voluntário, transformando a ficção em um chamado real à solidariedade.

Para se cadastrar como doador de medula óssea, é preciso ter entre 18 e 35 anos e estar em boa saúde. O procedimento é simples: basta procurar um hemocentro, preencher um cadastro e doar uma amostra de sangue para o exame de compatibilidade genética, que fica registrado no REDOME. Caso haja compatibilidade, o doador é convocado.

O Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) instalou um posto temporário de coleta em Fortaleza no Shopping Iguatemi Bosque, no Piso 2. O espaço funciona até 23 de novembro, de segunda a sábado, das 10h às 21h, e aos domingos, das 13h às 20h.

No local, além de doar sangue, os voluntários também podem realizar o cadastro como doadores de medula óssea. A iniciativa busca descentralizar o atendimento, aproximar a população e aproveitar a visibilidade do shopping para ampliar o alcance da campanha.

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Por: Paula Facó – publicitária e estudante de jornalismo

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