Nazismo: a base do governo Bolsonaro

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Não se aplica o falso argumento “liberdade de expressão” quando se fala em nazismo: é crime, gerou um dos maiores genocídios da história e deve ser tratado como tal. O assunto inundou as redes esta semana e chegou à TV depois que um apresentador de podcast questionou, na segunda-feira, por que o regime autoritário que matou milhões de pessoas na Alemanha não poderia ter um partido no Brasil. O nazismo, que para a maior parte da população durante décadas se resumiu a matéria de aula de história ou enredo de cinema, voltou com força à imprensa e ao debate político, pegando de surpresa boa parte do país — mas não quem acompanha o Intercept. Explico.

No TIB, há anos estamos alertando para o aumento de grupos neonazistas, a banalização de gestos e discursos de cunho fascista ou nazista por membros do governo Bolsonaro e trazendo provas irrefutáveis da admiração que grupos neonazistas já nutriam pelo presidente (então ainda deputado) há quase 20 anos.

Foi o que revelamos em julho de 2021, em uma live com a pesquisadora Adriana Dias, antropóloga que dedicou sua graduação, seu mestrado e seu doutorado a investigar o universo perverso dos sites neonazistas no Brasil. Além de acompanhar o crescimento frenético das páginas online (que sempre denunciava após fazer uma cópia do conteúdo), recentemente Adriana se deparou com uma bomba: além de banners de uma página neonazi linkando para o site oficial de Jair Bolsonaro, havia uma carta do próprio agradecendo, em 2004, pelo apoio dos internautas que acessavam seu site — acrescentando que eles eram “a razão da existência” de seu mandato.

Antes de chegar a esse ápice, já havíamos interpelado a governadora de Santa Catarina, Daniela Reinehr, filha de um professor de história conhecido no estado por negar o holocausto, pedindo que se posicionasse em relação ao nazismo. Na entrevista coletiva à qual enviamos o repórter Fábio Bispo, Daniela deu voltas retóricas mas saiu pela tangente, sem explicitar sua posição. Depois que publicamos o vídeo com a confusa resposta, ela veio a público enfatizando ser contra o nazismo. Ah, bom.

Episódios públicos da equipe do governo associadas ao nazismo não faltaram: Jair Bolsonaro já elogiou as qualidades de Hitler e fez foto com um sósia do fuhrer, já disse que o holocausto poderia ser perdoado. Seu ex-secretário especial da Cultura reproduziu, em um vídeo no início de 2020, falas, ambientação e postura copiadas do político nazista Joseph Goebbels. Seu assessor especial, Filipe Martins, foi réu por fazer um gesto de white power em uma sessão do Senado. Bolsonaro e vários membros de seu governo receberam sorridentes a deputada alemã Beatrix von Storch, do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha, neta do ministro das Finanças de Hitler, que liderou o confiscos dos bens dos judeus enviados para os campos de concentração e extermínio durante a ditadura do Partido Nazista. Em uma live, o presidente, o secretário da Agricultura e Pesca e o presidente da Caixa Econômica Federal apareceram tomando leite puro, um gesto comum entre supremacistas brancos.

Estamos alertando desde o início do governo Bolsonaro para o recrudescimento da onda neonazista no Brasil e as relações desses grupos com o bolsonarismo. Agora, com a atitude do influenciador Bruno Aiub “Monark” e, na noite seguinte, a saudação nazista do ex-BBB alçado a comentarista Adrilles Jorge na Jovem Pan News, o perigo e o alcance do discurso parecem ter ficado óbvios em escala nacional.

Queremos continuar investigando e denunciando os movimentos do neonazismo e quão intrincado o discurso supremacista, racista, misógino, homofóbico e capacitista de Hitler está no governo que comanda o Brasil hoje. Entender isso é crucial para que a população veja o risco que essa gente representa para o futuro da política brasileira.

Por: Leandro Demori – The Intercept Brasil

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