Brasil terá de explicar ao mundo a deposição de Dilma

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Jornal GGN –  Em análise publicada no El País nesta quinta-feira (11), David Allendete afirma que país terá o desafio de explicar “muito bem ao mundo” por que o Congresso tirou do poder Dilma Rousseff, presidente eleita democraticamente.


O editor do El País diz que é estranho que Dilma não esteja sendo julgado por espionagem, por ter roubado, enriquecido ou beneficiado a si durante o período que ocupa o poder, afirmando ainda que a “maquiagem fiscal” de que Dilma é acusada não é “nada de novo debaixo do sol“. “São incontáveis os casos de ajustes de contas suspeitos nos países desenvolvidos“, diz o editorial, classificando a prática como nociva, mas que não justifica uma medida como o impeachment. 


O fantasma de 1964


É desalentador e negativo para a imagem do Brasil ver como uma onda de indignação nas ruas deu legitimidade a uma iniciativa puramente política.


O Brasil tem diante de si um grande desafio. Terá de explicar muito bem ao mundo, a seus parceiros políticos e comerciais da América Latina e fora dela por que o Congresso está depondo Dilma Rousseff, reeleita democraticamente, pelas urnas, há 19 meses, com 54 milhões de votos.


É estranho, assim, que Dilma Rousseff não esteja sendo julgada por fazer espionagem, por ter roubado, por ter enriquecido ou beneficiado a si ou a sua família durante os seis anos em que esteve no poder. Ao que sabemos, a presidenta não embolsou um único centavo além da remuneração de 320.000 reais ao ano que lhe cabe por presidir o país.


A governante é acusada de descumprir a legislação fiscal ao utilizar dinheiro de bancos públicos para cobrir buracos orçamentários, dando a sensação de que as contas governamentais estavam sob controle antes das últimas eleições.


Trata-se de uma maquiagem fiscal, pura e simples. Nada de novo debaixo do sol. São incontáveis os casos de ajustes de contas suspeitos nos países desenvolvidos. Isso foi feito no Brasil, nos Estados Unidos, na Espanha e no mundo todo, principalmente em anos de crise econômica. Sem dúvida, é uma prática nociva pela qual qualquer Governo deve prestar contas, mas que não justifica, de modo algum, a adoção de uma medida tão drástica como é o impeachment.


É desalentador e negativo para a imagem do Brasil ver como uma onda de indignação nas ruas deu legitimidade a uma iniciativa puramente política. É, falando claramente, uma operação liderada por legisladores muito mais suspeitos de corrupção que Rousseff. Um dado: mais de metade dos parlamentares do Brasil têm problemas com a Justiça, sofrendo acusações de delitos como sequestro, agressão e roubo.


Ignoravam a máxima de que a verdadeira democracia representa a vontade da maioria, mas deve proteger também os direitos das minorias, incluídas neste caso as que querem que sejam respeitados os prazos eleitorais que permitem, acima de tudo, a estabilidade de um gigante da América Latina.



Por David Alandete – Do El País – Jornal GGN