
Aos 30 anos de idade e com 15 de carreira, o cantor Ayrton Montarroyos é daqueles artistas que parecem deslocados no tempo, e talvez por isso mesmo, tão interessantes. É dos que ainda anotam as músicas que gosta em cadernos para revisitar depois. Que passam horas no estúdio de casa, testando afinações e interpretações de canções. Que consomem literatura, teatro e cinema e os incorporam na sua música.
Em coletiva concedida aos alunos do curso de Jornalismo Musical da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ficou claro que a disrupção de Ayrton não
está apenas na forma de cantar ou produzir. Está na sua maneira de ser no mundo. A
política, no sentido mais profundo da palavra, atravessa sua fala e sua obra, mesmo quando não é tema direto.
Ele faz lembrar os artistas que, em outras décadas, moldaram não apenas o gosto musical
do país, mas também seus valores e debates. Ayrton resgata essa figura: a do artista que
pensa, que provoca, que às vezes desagrada, mas nunca soa vazio.
“Nascer no Recife foi um grande privilégio”
Ao falar da infância e das primeiras referências, Ayrton diz que o maior privilégio de nascer
na capital pernambucana é a riqueza cultural que se absorve desde cedo: “É uma terra em que você ouve forró, maracatu, frevo, xote, caboclinho, repente, umbigada”.
Ainda criança, o interesse já era pelas origens, pelos pilares da música brasileira. A busca
era tanta que ele rejeitava estilos mais novos. “Eu escutava música dos anos 30 e achava a bossa nova esquisitíssima, moderna demais.” Aos 15, subiu ao palco pela primeira vez e nunca mais saiu.
“As músicas são pílulas de mundo”
Hoje, mais eclético, Ayrton diz que a própria música o ensinou a gostar de música, e que
tudo o interessa. Essas “pílulas de mundo”, como ele define, são recortes de uma época, de
um povo, de um lugar, que contam histórias, boas ou ruins, mas sempre revelam algo sobre a experiência humana.
Além de ouvir um disco por dia, chega a assistir a quinze peças de teatro por mês. Os
cadernos onde coleciona músicas que gosta e deseja cantar já soma mais de 300 títulos.
Seu processo criativo, tanto nas composições quanto nos projetos, envolve revisitar essas
anotações, conectar ideias adquiridas nessas múltiplas linguagens e dar espaço ao silêncio,
um contraponto à lógica do imediatismo que domina a produção cultural atual,
principalmente, de sua geração.
“Todas as parcerias com músicos que admiro me interessam”
Ayrton acredita que a música é, antes de tudo, encontro. “A música não se faz sozinho”, diz. Talvez seja essa abertura ao aprendizado com o outro que o tenha feito colher frutos
também desde muito cedo.
Com apenas 18 anos, foi indicado ao Grammy Latino por sua participação no álbum
Herivelto Martins – 100 Anos. Dois anos depois, em 2015, tornou-se finalista do The Voice
Brasil, onde conquistou o grande público. Desde então, lançou três álbuns: Ayrton
Montarroyos (2017), o ao vivo Mergulho do Nada (2019) e o elogiadíssimo A Lira do Povo
(2024). Participou de projetos importantes, como o disco em homenagem aos 100 anos de
Gonzaguinha. Também dividiu palco com ídolos dele e do Brasil, de várias gerações e
estilos.
“Queria explorar alguns arquétipos do interior do homem, para além do interior
físico”
A vivência e o olhar sobre o sertão, de forma física e simbólica, dão uma assinatura muito
própria ao seu trabalho. A Lira do Povo (2024), seu terceiro álbum, foi pensado como uma
travessia do homem que parte do sertão em direção à cidade.
A obra é dividida em três suítes, totalizando 29 canções, e tem uma ambição narrativa
quase cinematográfica. É uma experiência que desperta imaginação, melancolia e
pertencimento, e que revela influências claras de múltiplas linguagens artísticas.
“O artista que perde o contato com seu povo fica xoxo”
Ayrton reflete que artistas como Bethânia, Caetano e Gil, tamanha a grandeza que
conquistaram, acabam se descolando do cotidiano, virando quase entidades. Refletindo
sobre o repertório de um dos seus ídolos, Ayrton comenta que “há 20 anos uma música do Caetano não me emociona”, e ele atribui isso à desconexão com seu povo. “Falo isso com respeito, pois são meus mestres”, diz. Mas faz o alerta: o artista precisa manter os pés na terra, ouvir o povo, sentir a rua. É dessa troca que vem a inspiração, e entendendo seu lugar, seu povo, suas aspirações e sentimentos, que a música consegue tocar as almas e se tornar imortal.
Por: Paula Facó – Publicitária e Estudante de Jornalismo




